Ana Flávia Baldisserotto

O conjunto de pinturas que compõe a exposição Infinito é o resultado de pelo menos três anos de trabalho constante em torno do imaginário poético suscitado por uma mesma matriz geradora: as noções de rede e suas tramas.

Quando conversamos pela primeira vez, este projeto estava em fase inicial. Na época, Esther me mostrou um caderno repleto de esboços e anotações. Eram referências que abarcavam universos tão amplos quanto os mapas das cidades, os trajetos cotidianos, as malhas rodoviárias e aeroviárias, as redes de informação, comunicação e energia, as relações sociais, os afetos, as famílias, as árvores genealógicas, as artérias e veias, o cérebro, os tecidos os ecossistemas, as constelações e galáxias, as relações entre os campos do conhecimento, as bibliotecas… Era uma lista que não terminava. De repente, o mundo todo se apresentava  para Esther , como trama de uma rede infinita.

Como traduzir em pintura estas anotações gráficas e as intuições que sua observação registrava? E como fazê-lo sem tornar-se excessivamente narrativo, e4scaziando a potência do tema?  Estes eram os desafios diante dos quais se colocava naquele momento.

Ao percorrer as principais etapas da trajetória de Esther Bianco, não é difícil perceber  que os caminhos encontrados pela artista para responder a estas questões já estão anunciados nos interstícios de sua produção anterior. Formada em Artes Plásticas nos anos 60, Esther tem uma atuação reconhecida em nosso meio, expondo seus trabalhos com frequência e participando ativamente de projetos coletivos voltados para o fomento da produção artística local. Estas características, por si só, já dizem muito de seu interesse pelas relações humanas que a arte permite, viabiliza e inform. Em termos de sua dinâmica interna, o processo criativo de Esther Bianco vem se ordenando em torno de eixos temáticos aos quais se dedica intensamente por um período determinado de tempo. Animais e plantas em suas transfigurações inconscientes, o feminino e masculino com seus encontros e desencontros,  arquiteturas, a água e temáticas relacionadas com a literatura gaúcha (como as obras relacionadas à obra de Mário Quintana, e ao Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo) são alguns do temas de que já se ocupou. Para além da diversidade dos assuntos escolhidos, no entanto, é possível destacar algumas constantes estre os elementos e jogos formais explorados por Esther ao longo dos anos. Sua pintura é sempre rica em tensões entre figura e fundo, num universo  onde manchas difusas, zonas  de cor sobrepostas em veladuras buscam uma figuração de atmosfera quase sempre onírica. É interessante observar em retrospecto, que as tramas, redes e estruturas em malha – elementos que vieram assumir o papel de protagonistas nesta última etapa de trabalho – são recorrentes em diversos momentos anteriores da produção. Ora é uma trama ortogonal que aparece como plano de fundo de uma cena, ora é a textura que se constrói no entrelaçamento de cores e pinceladas, ora é a estrutura arquitetônica de uma fachada, ou então, as redes aparecem em versões bem orgânicas, como evocação dos movimentos da água. Nestas etapas, as tramas quase sempre emergiam subordinadas a outros elementos simbólicos de força narrativa mais evidente. Em algumas destas imagens, entretanto, as tramas agiam como mediadoras entre zonas de estrutura claramente figurativa e zonas onde os limites das formas simbólicas se perdiam em manchas. É neste sentido que podemos dizer que o pensamento que se apresenta nesta última série de trabalhos já vinha se gestando há muito mais tempo. Silenciosas, as redes vinham respirando e ganhando vida própria nas arestas de outras tramas.

É fato incontestável que a noção de rede permeia hoje quase todos os campos do conhecimento, das ciências exatas, às humanas. ”(…) A noção de rede vem despertando um tal interesse nos trabalhos teóricos e práticos de campos tão diversos como a ciência, a tecnologia e a arte, que temos a impressão de estar diante de um novo paradigma, ligado, sem dúvida, a um pensamento das relações em oposição a um pensamento das essências” 1 .

Quando uma ideia ou conceito adquire tamanha relevância para um determinado contexto cultural é comum que se observe também o efeito de uma certa banalização, ou esvaziamento de sentidos no tratamento do tema. Penso que um dos méritos da artista neste trabalho foi não cair nesta armadilha. Talvez a causa deste efeito resida na entrega indiscutível de Esther ao seu trabalho. Sem nunca ter abdicado das linguagens com as quais estabeleceu um vínculo de empatia e intimidade desde os inícios de sua carreira – a pintura e gravura – e sem a pretensão de elaborar um discurso conceitual sobre a linguagem pictórica ou sobre o que quer que seja, Esther pinta com paciência e com uma certeza sábia sobre a relatividade dos valores, discursos e formas. Dedicada a viver a pintura como processo de auto exploração contínuo, dá linha as suas intuições, nos convidando a compartilhar de latitudes infinitas.

Seria improdutivo avançarmos em direção ao terreno interpretativo: sem dúvida a diversidade de ressonâncias e impressões poéticas provocadas por estas obras é a marca de seu frescor  e correspondem justamente  “(…) à pluralidade de caminhos oferecidos à autora  durante seu trabalho de produção” 2.

Pois nesta última etapa de trabalho, as redes tornam-se a forma preferencial de ativação do plano pictórico justamente para que este possa dar vazão a uma profusão dos jogos entre polaridades abertas. Em sua lógica complexa e multiforme, as redes de Esther buscam expandir-se em planos e pontos de vista múltiplos, enlaçando linhas e manchas, continuidades e a rupturas, o estático e o9 dinâmico, o orgânico e o arquitetônico, o visceral e o cerebral, a luz e a escuridão, o dentro e o fora, a forma e o informe. Não é a toa que Esther vai escolher nomear este conjunto com aquele que é talvez, o mais abstrato da família dos substantivos: infinito.

Perguntemo-nos apenas de que tamanho é i infinito? Uma pergunta pueril? Será possível conceber em termos humanos uma coisa que não começa e não termina? A consciência se estende, se espicha até seus limites. E resiste. A percepção escorrega pelas tangentes da mente: a experiência do infinito nos é barrada corporalmente. Pensar o infinito nos desmede e derruba, depois escapa. Mas por que não podemos apreender um universo infinito, não que dizer que não possamos intuí-lo, sonhá-lo.

Termino trazendo à lembrança uma das mais fascinantes image4ns do infinito produzidas pela cultura. Embora a doutrina budista não faça parte do quadro de referências pessoais da artista, o mito hindu-budista da rede de Indra 3 produz uma metáfora de alcance universal. Trata-se da imagem de um cosmos composto de uma rede de reinos infinitos contendo reinos também infinitos, onde cada ponto de conexão da malha contém todos os outros. Para a doutrina budista esta estrutura simboliza os conceitos de interdependência e interpenetração, segundo os quais  todos os fenômenos estão intimamente ligados em um universo onde todos os membros têm relações de afetação mútua, repetidas infinitamente 4.

Francis Harold Cook descreve a metáfora da rede de Indra a partir da perspectiva da escola Huayan 5 assim:  Lá longe, na morada celestial do grande deus Indra, existe uma rede maravilhosa, que foi suspensa por um artífice astuto, rede esta que se estende infinitamente em todas as direções. De acordo com os gostos extravagantes de deus, o artífice pendurou uma única joia brilhante em cada “olho da rede; uma vez que a rede em si é infinita em dimensão, as joias também são em número infinito. (…) Se agora nós selecionamos arbitrariamente uma dessas joias para inspeção e olharmos atentamente para ela, vamos descobrir que , na sua superfície polida estão refletidas todas as outras joias da rede, infinitas em número. Não só isso, mas cada uma das joias refletidas nesta, por sua vez também está refletindo todas as outras joias, de forma que ocorre um processo de reflexos infinitos”.

Ainda que o acesso à percepção de um infinito só nos seja dados às proporções, mediado por conceitos, símbolos e metáforas, as pinturas de Esther – como joias de Indra – tem a potência de fazer convergir tempos e espaços em um caleidoscópio de relações sem fim. Um presente que se oferece à indomesticável vocação humana para um pensamento sem bordas.

Ana Flávia Baldisserotto

Agosto 2010

Artista e professora, formada em Artes Plásticas e mestre em

História Teoria e Crítica de Artes pela UFRGS.

 

1 Parente, André (org). Tramas da Rede. Novas dimensões filosóficas, estáticas e políticas da comunicação. Ed. Sulina, Porto Alegre, 2004.

2 Valéry, Paul, Primeira aula do Curso de Poética. In Variedades. Iluminuras, São Paulo, 1991.

3 ”Pérolas de Indra”, desenvolveu-se nas escrituras Avatamsaka sutra da escola budista chinesa Huayan. O Avatamsaka Sutra é uma das escrituras mãos importantes do budismo do leste asiático.

4 Lee, Kwang-Sae, East and West: Fusiono f Horizons. Homa & Sekey Books, 2005.

5 Cook, Francis H., Hua_ten Buddhism: The Jewel Net of Indra, Penn  State Press, 1977. (tradução da autora)